Muito se fala na sociedade civil e naquilo que ela pode representar, nomeadamente a substituição do estado por particulares/empresas/associações, na assumpção de responsabilidades e tarefas para o bem comum.
Dito deste modo as coisas podem parecer simples e muito lógicas. Em alguns países até se pode provar funcionar, mas certamente em países marcados por lógicas societarias mais organizadas e disciplinadas.
Em Portugal acredito cada vez mais que não funciona.
A verdade é que (em geral) a nossa sociedade civil, sejam as pessoas, instituições, empresas, associações e clubes, funciona de forma monetarista, ou seja, funciona desde que sejam subsidiados ou desde que tenham um impulso de ganho de qualquer espécie.
Há certamente muitas ideias, há certamente muita vontade, há certamente muita gente válida, mas a verdade é que (em geral) todas as ideias acabam por terminar no fim do evento, cerimónia ou festa, no estado (de uma maneira ou de outra).
Ou seja, a dita sociedade civil tem as ideias, desenvolve algumas, mas a conta acaba num dos milhares de tentáculos do estado. Ou seja, todos nós pagamos.
Perdemos há muito o sentido comum e de trabalho nesse sentido e, perante as dificuldades que cada vez mais vamos enfrentar, temos de fazer um outro caminho e repensar esta sociedade de ideias que inevitavelmente acabam penduradas nas contas de todo.
Sejam as inúmeras associações de tudo e mais alguma coisa, sejam os clube de bairro, tudo tem vivido de uma forma anárquica, disfarçando as suas incapacidades e insuficiências num qualquer orçamento de estado, de autarquia ou de região de turismo e afins.
A sociedade civil não é verdadeiramente livre porque vive cativa das receitas do estado e de outras entidades públicas.
Exemplos do que tento referir neste post encontram-se em todo o país. Aqui no Seixal, ao que me é dado a ver, o exemplo máximo mesmo está nos clubes e colectividades. São muitos e variados, mas duvido sinceramente que algum deles consiga sobreviver apenas com as suas próprias receitas, sejam oriundas das quotizações, sejam de outras actividades que desenvolvam junto da sua população que possam ser gratificadas.
Há clubes para todos os gostos e feitios, sejam de terra, de zona, de rua, de praceta ou até de azinhaga. Muitos (ao que dizem alguns populares) criados de parto espontâneo no PCP local, como forma de controlar o associativismo. Seja assim, ou não, a verdade é que muitos destes e de outros clubes/associações espalhados pelo país não passam de cafés ou tascas com emblema próprio.
Poucas actividades desenvolvem para (e com) a comunidade e pouco são sentidos (ou sequer conhecidos) como úteis para a zona em que se inserem.
Ainda assim vemos, e já não me refiro apenas ao Seixal, que muitos clubes, associações e afins têm subsídios, contratos programa, ofertas, pagamentos e outros tais, às vezes nem se percebe bem porque razão. Tudo isto sai do bolso comum e aparenta ser pouco justificado, já para não falar do prestar de contas, que muitas vezes pode ser feito por um relatório, que na verdade não me convence.
Uma sociedade civil pouco independente é, em si mesmo, uma dupla e forte fragilidade democrática, não só porque não se cria verdadeiramente o hábito de a comunidade participar desinteressadamente no bem comum da sua zona/terra/etc, como também estas associações, clubes e afins ficam reféns das entidades que lhes pagam, subsidiam ou avençam.
E, nestas coisas, já se sabe: manda quem paga.
Muitos anos de "crescimento económico" e de aparente riqueza fizeram-nos desligar uns dos outros, sente-se mais nos subúrbios e na grande urbe do que no interior, mas é tempo das pessoas voltarem a ligar-se a si, aos seus mais próximos e procurar um bem comum, seja para o seu bairro, para a sua rua ou para a sua terra.
Recordo-me que muitas vezes a ajuda a um vizinho que precisava de uma obra em casa ou no quintal era feita com a ajuda dos vizinhos, que mais tarde se revezavam na ajuda comum. Ou que, muitas vezes, a limpeza do terreno atrás da casa dos meus pais era feita a um sábado ou domingo por quem ali morava em redor, um trabalho colectivo que muitas vezes acabava com umas minis para os adultos e um gelado ou algo parecido para os mais novos.
Vai ser difícil mas temos de tentar algum regresso a estes hábitos perdidos, de outro modo continuaremos, enquanto sociedade civil, a ser reféns de um estado que não vai ter dinheiro para alimentar hábitos antigos.
Aliás, o estado ruma a um ponto em que não vai conseguir, sequer, alimentar-se a si próprio.